Vagando pelo deserto


Este post pode ser lido ao som de Horse With No Name, com o grupo America

Hoje, vou me permitir fugir um pouco do universo gay. Resgatei um artigo meu, de alguns anos atrás, para sugerir uma reflexão sobre a beleza no mundo. Principalmente para quem mora em cidades como São Paulo, onde tudo está corrido, mesmo que se esteja parado no trânsito, é bom lembrar que um olhar mais detido sobre o humano não é perda de tempo, mas um ganho de vida. Leia e entenda como, na vastidão do Sinai, entre o azul onde flutua impiedoso o sol e a terra na qual nada brota, enxerguei pela primeira vez, pelos olhos dos beduínos, que a beleza realmente está onde não se pode vê-la

“Não pare o carro de jeito nenhum!”. A ordem era clara, repetida em inglês, francês, alemão e espanhol. E vinha de um sisudo oficial egípcio incumbido de orientar aqueles 80 jornalistas do mundo todo que se preparavam para um rali que atravessaria o deserto do Sinai, partindo de Suez em direção à Jordânia.

Ao menos no meu caso, a proibição era a deixa para aguçar a curiosidade e surtir exatamente o efeito oposto. E pergunto, com inocência real, a razão de tanto cuidado. Para quem vive em São Paulo, o que de mal poderia haver em um deserto? “Infelizmente, ataques terroristas não são incomuns em nossa terra e no restante do Oriente Médio”, relembrou professoralmente o militar.

Me senti um idiota, claro. Que jornalista não saberia isso? Mas minha curiosidade era outra. Afinal, eu não precisaria parar o carro para ser vítima de um atentado (e a reunião de tantos jornalistas estrangeiros era realmente um prato cheio…). O que queria, mesmo, era conhecer de perto os beduínos – e não atravessar o deserto vendo um filminho passando do lado de fora da janela de um carro com ar-condicionado…

Para não esticar a conversa, dei um sorriso amarelo diante das risadas generalizadas de meus colegas e, intimamente, enquanto carregava meu carro, já havia decidido: como não tinha nenhuma vocação nem vontade de ganhar rali algum, uma parte do meu tempo seria dedicada à parada estratégica. Duro foi convencer meu navegador francês, sorteado entre aqueles que não faziam questão de pilotar.

Isso só aconteceu no segundo dia de corrida, quando já estávamos mais entrosados. De comum acordo, paramos à beira da rodovia que serpenteia em uma trilha ilógica no meio da areia, bem próximo de onde estava montado o acampamento de uma tribo de beduínos – que significa literalmente “habitantes do deserto”. O coração batia acelerado, mas estávamos decididos.

Assim que paramos, o chefe do acampamento se aproximou desconfiado, assim como seus três acompanhantes. Foi mesmo espantoso perceber que o pouco de pele deixada à mostra pelas largas e longas vestes (feitas especialmente para facilitar a circulação do ar e refrescar o corpo) parecia recoberta pelo fino pó do deserto (que, depois vim a saber, realmente ajudava a proteger a pele). A curiosidade era mútua.

Falando um francês muito bom, ele queria saber o que queríamos, em tom seco, porém não hostil. Conversa vai, conversa vem… Brasil… França… Corrida… Em pouco tempo, já estávamos todos mais relaxados. Ele repetiu o conselho do oficial, lembrando que o deserto é realmente perigoso – e que poderíamos ser presas fáceis de bandidos (e não dos beduínos). No meio da conversa, ele me pede um cigarro e, respeitando a tradição local, começamos uma longa sessão de escambo: seria uma ofensa simplesmente dar-lhe o cigarro. Depois de longas e divertidas negociações, dei um maço inteiro, fechado, em troca do kaffiyeh (turbante) que ele trajava.

Foi quando chegou até nós um grupo de crianças, rodeando a esposa de nosso cicerone. Por não poder falar diretamente conosco, ela cochichou algo ao mais velho dos meninos. “Minha mãe quer saber o que o senhor pede em troca de nos dar um pouco da água que carrega”, me disse o garoto. Os beduínos sabem que quem cruza o deserto carrega água consigo. “Nada”, respondi. “De onde venho, não se nega água a quem tem sede e nada se pede em troca.”

O pai ficou realmente ofendido, perguntou se não havia aprendido nada de nossa recente troca. Imaginei ter dado início a um novo impasse internacional com meu gesto. “Diga à sua mãe que me dê o que ela achar justo pela água”, disse já retirando um tambor de 5 litros de dentro do carro. Quando o coloquei no chão, junto à mulher, ela simplesmente retirou do pescoço e me entregou talvez o único adorno que possuísse no meio daquele deserto: um colar.

Até hoje me emociono ao lembrar disso, passados já alguns anos. Esse gesto, de abrir mão de sua vaidade em nome da honra e de, por seus próprios meios, poder dar água aos seus filhos, talvez tenha sido a mais completa demonstração de beleza que tive em minha vida. Minha irmã, que foi quem ganhou o colar na minha volta, até hoje o guarda como a uma preciosidade. Não por sua beleza (que também é grande), não por seu valor, mas por respeito a essa história. Afinal, a mim ele custou apenas 5 litros d’água. Para sua dona, nunca soube calcular.

2 Respostas to “Vagando pelo deserto”

  1. Pedro Paulo Maia Says:

    as vezes nao damos valor as coisas simples, soh nao tendo para perceber o quanto valem.

  2. Jack Bauer Says:

    cara, esse blog da DOM é muito bacana. Tem o que ler. Tem o que refletir. Tem conteúdo. Nem sempre ocncordo, mas respeito. Vocês estão arrasando em todas as mídias!!! Dá orgulho de ser gay e saber que nem tudo são só plumas, paetês e patrulhamento.

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