Golpe-Gaivota

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– Isso, ai, é aí mesmo.
– Aqui?
– É, ai, faz com força.
– Vai doer…
– Não tem problema. Mesmo que eu reclamar, continue.
– Depois você nem conseguirá levantar dessa cama…
– Ok. Eu durmo aqui e você me chama amanhã.

Foi assim que começou minha primeira sessão de massagem, hoje, umas três horas atrás. Fugi da redação e fui pedir socorro a um par de mãos desconhecidas. Como eu sempre digo, meu ombro direito é o “lado negro da Força”: todo errado, me causa uma dor danada.

– Meu Deus! Quantos nós! Como você está conseguindo se mexer?
– Pois é, não estou… Au!

Tem dia que é mesmo cheio de nós. E daí me bate aquela vontade de assistir ao meu filme preferido, que me cai como uma massagem. Eu não tinha mais do que sete anos quando assisti ao Karatê Kid – A Hora da Verdade, de John G. Avildsen (Rocky), com Ralph Macchio, Pat Morita e Elizabeth Shue.

E me lembro dos menores detalhes, como se nem fizesse 20 anos que o assisti. Mas justiça seja feita: me lembro dos detalhes sim, de todas as cenas, de todas as falas – e falhas –, das cores, das músicas; mas não por conta da estréia barulhenta do filme na minha infância, e sim porque eu não consigo passar mais de dois meses sem assisti-lo de novo, de novo e de novo (Sim, eu sou estranha – e larga a mão de fazer essa cara).

Embora saiba qual é a próxima cena e o próximo diálogo (afinal são duas décadas de experiência…), as emoções são estranhamente as mesmas. Que poder é esse?

Gosto da relação de amizade existente entre um garoto americano e um velho japonês (minha loucura pela cultura japonesa fica para outro post…). Gosto da mistura de possibilidades e da troca de vivências tão distintas. Do dar e receber por afeto, da junção de conhecimentos, do entrelaçamento tão improvável de culturas e visões de mundo.

O que se repete, de certa forma, no relacionamento do Daniel San com a “menina-rica-bonita-e-simpática-que-não-serve-para-ele”. É um fazer de conta que torna possível o mundo que cada um quer para si mesmo.

Mas como toda história tem um bicho-papão, eis que aqui são vários: uma turma que o detesta, que o achincalha e o humilha. Mas o equilíbrio e a força interior, transmitida por um mestre oriental, faz do nosso franzino personagem um herói íntegro, simpático e vencedor. Que beleza…

Gosto dessa brincadeira de fazer dar certo, toscamente, que o seja, mas que coloca o espectador num local muito cômodo – o da imaginação – que o faz ser o que quiser, com quem quiser e como quiser.

Por outro lado, fico imaginando: Como posso gostar tanto disso com dezenas de exemplos anos-luz melhores do que este?

Não gosto da receita de bolo prontinha que diz: “junte um fraco e um forte, misture bem. Reserve. Separe o pobre do rico, bata a clara em neve, misture-os cuidadosamente. Unte o espectador com melodrama barato e coloque para assar-chorar. Deixar 40 minutos de embromeishon na tela, retirar com música especial e servir quente, perfeito, fofo e bonito”. Sem questionamentos, sem nada para pensar.

A brincadeira vale para infindáveis filmes holywoodianos. E disso eu não gosto. Não gosto da dedução que posso fazer a respeito do final de um filme quando ainda estou em sua primeira meia hora. Da imposição de condutas ou teorias prontas que, obviamente, são sempre de cima para baixo.

Também não gosto da pretensão de se fazer comédia, quando na verdade vemos qualquer coisa, menos graça. Da ficção vazia, do drama infundado, do musical exagerado, da ação com violência gratuita e banal.

Não gosto da glamourização estapafúrdia dos atores e atrizes e da venda de seus valores duvidosos. Mas, puxa, gosto tanto do senhor Myagui e de seus bonsais, do Daniel Larusso e seu golpe-gaivota, que manda todos os meus bichos-papões para a lona, várias vezes ao ano.

Acabei de chegar em casa, e queria muito escrever este post. Dividir os nós. Hoje desfiz vários deles. E dei alguns golpes-gaivota, só para não deixar barato. Hunft. Vou para a cama torcendo para que você, leitor, encontre, DO SEU MODO e sem medo, a melhor forma de transformar os nós em laços.

BANZAI! 

8 Respostas to “Golpe-Gaivota”

  1. Tá, arrasou mais uma vez em seu post. Vc sabe que amo o seu jeito de escrever (e não to puxando o saco por você ser minha chefe ta, ahahaha).

    Só acho que vc devia dar crédito as minhas massagens tbm, hunft. Só porque eu ganho apenas 5 reais por elas não quer dizer que não são boas hahaha

  2. Valmir Junior Says:

    Pra variar, arrasando. Sou seu fã, Tatá. Vou dar meus golpes-gaivota nos sonhos… E arrumei tudo bonitinho, tá? Beijão!

  3. Tatá,
    preciso comentar?
    Baci

  4. simples…e incrível…tatá!
    vontadinha de chorar…eu to emotivo…rsrsrs
    bitoca das bem gostosas!!!!!sabe daquelas?

  5. Pedro Paulo Maia Says:

    meu esse filme eh um classico, na minha epoca ele jah passava na seçao da tarde e lembro mto bem de algumas cenas, tipo a do daniel enceirando os carros. confesso que estou numa onda de ver filmes antigos, onde para prender a atençao do espectador eram usados roteiros bem escritos e boas atuaçoes, nao os efeitos especiais e a barulhada de hj.

  6. Taís, esse seu texto é um verdadeiro primor. Irretocável. Emocionante. Acho que esse é o caminho. Enfatizar, sim, sem medo de ser feliz, a emoção. Somos seres emocionais! E hoje, cercados e atados por nós, temos que fazer fazer a força da emoção para transformar os nós em laços. Ótimos laços para você.
    Beijo
    P.S. Sou sua fã!

  7. Se vc não escolher um lado, te peguam feito uva!
    E vc escolheu o lado certo! (Diferente do seu ombro, que preferiu o lado negro… rs)
    Um abração!

  8. Amei o texto! E também gosto do filme, principalmente da trilha sonora🙂

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