Descontruindo o mundinho

Capítulo I – Drag queens

Minha porta de entrada para o gueto foi a boate Tunnel, na Rua dos Ingleses, em São Paulo. Não foi tão grande a surpresa de ver adolescentes dos mais variados estilos, incluindo aí surfistas e skatistas, quanto a constatação de que tinham tantos assim como eu. Se minha porta de entrada foi a Tunnel, meu ingresso foi dado pela “bilheteira” Silvetty Montilla. Foi essa drag queen negra que me contextualizou para o mundinho. Com seus bordões, piadas, sarros e bate-bolas com pessoas da platéia, Silvetty legou um aprendizado que me é muito caro: importante é a capacidade de conseguir rir de si mesmo.

Eu conhecia ali uma drag caricata.

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Algum tempo depois, conheci a Blue Space da Rua Brigadeiro Galvão, de Victor Soffredini, também em São Paulo, em um sábado. O ar mais adulto da casa me deixou mais consciente de que ser gay não era apenas uma fase. “Isso se estende, sim, pela fase adulta e perdura,vejam só, pela vida inteira!”. Em meio aos corpos seminus de homens grandes (que mais tarde aprendi serem as barbies) e outros meninos mais mignons (as ditas bichinhas, pejorativamente assim chamadas pelas barbies), de repente, abrem-se as cortinas e entra um transformista. “Transformista, não. Drag queen”, me corrigem. Desculpem se aprendi com o Raul Gil que era transformista. Ela dubla uma house music bem marcada, de forma que ela realça certas paradas e batidas com poses e um movimento de cabeça que faz girar seus cabelos (o tal bate-cabelo). Uma mulher, quase. Seu nome: Raphaella.

Eu conhecia ali uma drag. Detalhe: não há segunda alcunha, algo como drag não-caricata. Só drag.

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O tempo se passou e, mais tarde, estava eu na extinta Level, na Barra Funda (Sérgio Kalil prenunciando a formação de um novo eixo gay em São Paulo), um dos últimos redutos gays em que as barbies se importavam em parar de dançar para assistir às drags dublando em seus números. Todo mundo dizia: “Cansei desse show da rosa da Raphaella, da Divina Núbia e a música do Chicago, ou a Taleessa Top e o remix de Finally A Love Story.

Feita essa relembrada dos áureos tempos das drags, devo constatar que, em SP, acontece um movimento pelo qual as outras capitais devem passar em breve: ficam os shows das caricatas e somem os das não-caricatas. Cada vez mais. E pergunto o porquê disso. Arrisco um palpite.

O homossexual hoje enfrenta um dilema ao assumir para si mesmo: deve ser diferente e manter-se à margem, como excluído, contestador e transgressor (à imagem das drags) ou deve se embrenhar pelo consenso geral de “normalidade”, apropriando uma atitude mais aceita pela sociedade? Esse assunto é pano para manga.

Mas quero dizer que, lentamente, provavelmente por questões de aceitação da sociedade e mudança de valores nessa sociedade de hoje (poucas, admito), o homossexual pende mais para o tal “consenso geral” e, por isso, não se vê, tampouco se identifica com um show de drag clássico (que eu acho bonito e legal), com dublagem e coreografia. São poucos os clubes que sustentam esse modus operandi. E as caricatas, por saberem rir de si mesmas, continuam no auge, vide a fama de Nany People, Silvetty Montilla e Thalia Bombinha entre gays ou não.

Abaixo, um vídeo de Nany e Silvetty na Blue Space, Thalia Bombinha nos impagáveis O Viado Veste Pra Dá e A Drag A Gozar e um show da top drag Raphaella Farias.

4 Respostas to “Descontruindo o mundinho”

  1. bom eu sou suspeito para falar… pois não gosto de show de drag… sei lá não me atrai… e acho que isso tem aumentado mto em SP .. mas qdo ia ao interior via que ainda é forte a adoração deles por esse tipop de show…

  2. Só pra lembrar, o ator conhecido como Nany People é acima de tudo um exemplo de profissional que estudou e se preparou. Ator formado pelo Teatro Escola Macunaíma, ele tirou seu DRT há mais de 15 anos e possui vasta experiência nos palcos, sendo inclusive dirigido por Rodolfo García Vázquez (um dos dois fundadores dos Satyros).

    Então, vejo os shows dela desta maneira, como um trabalho artistico, de um profissional que estudou, se preparou e conhece a história, os direitos e os deveres de um ator.

  3. […] Descontruindo o mundinho Vítimas de si mesmos […]

  4. Laio Realengo Says:

    Independente de fazerem teatro profissional ou não as drags são personagens e seus shows são espetáculos. O que lamento é que no tempo de Rogéria e cia as drags verdadeiramente cantavam e hoje só fazem dublagem e uma coreografia tosca. É preciso revitalizar o glamour destas pessoas e repensar sua atitude. Não acredito que os gays estejam aderindo a normalidade e por isso as drags irão acabar, sempre haverão novas drags porque existem vários tipos de ser humando e muitos destes tem a alma drag de Elke Maravilha a Léo Aquila as drags sobreviverão.

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