Vítimas de si mesmos

Para ler ouvindo Amor Pra Recomeçar, de Frejat

“Ó vida, ó céus, ó azar…” O bordão era repetido à exaustão por uma hiena triste em um desenho animado (acho que se chamava Lippy e Hardy, sendo este último o tal azarado). Eu me divertia muito vendo o pobre animalzinho tomando na cabeça. Sim, crianças podem ser bem sádicas. Aí está, até hoje, o Pica-Pau, que não me deixa mentir.

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Entre os opressores pica-paus e os oprimidos hienas, existe sempre uma relação de prazer de ambos os lados. Um tira prazer da humilhação do outro (enquanto o outro, mesmo sem perceber, encarna o papel de vítima e dele, por mais que não perceba, também tira algo: seja prazer, seja a comodidade que gera o conformismo). No universo gay, há muitas hienas, infelizmente. De ambos os tipos: as que riem de tudo e as que reclamam de tudo.

As que riem não estão dizendo que aceitam humilhações e preconceito. Porém, sabem separar tiros de festim dos de metralhadora. No fundo, sabem rir de si mesmas, fazendo com que pessoas com calibre de traque se intimidem e pensem duas vezes antes de atirar. Porém, entre as hienas “ó vida, ó céus”, tudo vira tiro de canhão. Isso faz com que os algozes, mesmo os menos dotados intelectual ou belicamente, se sintam sempre com poder de fogo suficiente para sair atirando.

O que resta do outro lado do cano fumegante? Vítimas, vítimas e mais vítimas. Não é preciso ser 8 nem 80. Mas seria sábio deixarmos para trás o papel de vítimas. Ele não nos cabe, mesmo. Vamos usar nossa inteligência, nossa dignidade e a ética longe da conveniência para gritar contra aquilo que realmente importa. E ter sabedoria para distinguir festins de canhões.

Confundi-los só vai fazer com que, cada vez mais, canhões se voltem contra nós. Um passo para sermos levados a sério e sermos respeitados é abandonar, de uma vez por todas, o papel de vítimas. Não sejamos algozes de nós mesmos. Como diz a campanha de Obama, nos EUA: “Yes, we can!”. Basta decidir o que queremos poder…

Frejat apontou um bom ponto de equilíbrio em Amor Pra Recomeçar. Vale a pena parar pra pensar:

Eu te desejo
Não parar tão cedo
Pois toda idade tem
Prazer e medo…

E com os que erram
Feio e bastante
Que você consiga
Ser tolerante…

Quando você ficar triste
Que seja por um dia
E não o ano inteiro
E que você descubra
Que rir é bom
Mas que rir de tudo
É desespero…

Desejo!
Que você tenha a quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda, exista amor
Prá recomeçar
Prá recomeçar…

Eu te desejo muitos amigos
Mas que em um
Você possa confiar
E que tenha até
Inimigos
Prá você não deixar
De duvidar…

Quando você ficar triste
Que seja por um dia
E não o ano inteiro
E que você descubra
Que rir é bom
Mas que rir de tudo
É desespero…

Desejo!
Que você tenha a quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda, exista amor
Prá recomeçar
Prá recomeçar…

Eu desejo!
Que você ganhe dinheiro
Pois é preciso
Viver também
E que você diga a ele
Pelo menos uma vez
Quem é mesmo
O dono de quem…

Desejo!
Que você tenha a quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda, exista amor
Prá recomeçar…

Eu desejo!
Que você tenha a quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda, exista amor
Prá recomeçar
Prá recomeçar
Prá recomeçar…

2 Respostas to “Vítimas de si mesmos”

  1. caraca!!! Deve ter neguinho com a canela doendo hehehe. Mandou bem.

  2. Achei o texto legal. Me faz pensar. Ficou no limite pra ser meio radical, né? Mas não ficou.

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