DiverCidade

Um evento fantástico

cartaz.jpgComo eu já havia comentado aqui no blog, ontem aconteceu a abertura da segunda edição do DiverCidade (releia aqui o post). Foi sensacional! O terceiro painel de mesa redonda que aconteceu à tarde contou com a participação da DOM, além da presença de Milton Belintani (Revista Sentidos), Oswaldo Faustino (Revista Raça), Flavia Moraes (Philips do Brasil) e Andrea Wonffenbuttel (Instituto Akatu).

Sob o tema de Comunicação e Inclusão, as palestras, que aconteceram no Novotel Jaraguá, em São Paulo, tiveram mediação de Ricardo Hilda, da Associação Brasileira de Turismo GLS (ABRAT – GLS). O tema central da mesa-redonda foi: “Todos os públicos estão contidos no seu diálogo com o público todo?”.

Foi muito interessante a abordagem dos profissionais das três revistas, que explicaram como ocorreu a evolução das mídias para o público segmentado (negros, portadores de deficiências e os homossexuais). Embora ainda sejam tratados como minorias, como uma parcela muito pequena da população, os dados passados durante a palestra desmistificaram essa pré-definição. Segundo as pesquisas demonstradas, no Brasil teriam em torno de 18 milhões de homossexuais, 27 milhões de deficientes físicos e 50 milhões de negros. Ou seja, não é pouca gente.

Oswaldo Faustino, da Raça, disse que em 12 anos de revista, a postura perante o negro mudou completamente. Antigamente, a forma de militar era de auto-comiseração e a comunidade negra não tinha espelho, não conseguia ser enxergada. Embora muito grande, era uma comunidade invisível. E isso demorou muito para ser modificado.

Como exemplo, ele citou a evolução dos papéis do negro nas novelas. Antigamente, os negros apenas apareciam como escravos, empregados, marginais. A imagem sempre era ligada a uma parcela pobre e miserável da sociedade. Além disso, era mostrado como erro o fato de um branco querer se envolver com um negro. Porém, décadas depois, hoje já podemos ver o inverso. Na teledramaturgia da novela Duas Caras, por exemplo, é mostrada a negra que não quer se envolver com um branco. Talvez 12 anos atrás isso não seria discutido.

Milton Belintani, da Sentidos, explicou que muitas vezes o deficiente físico é visto apenas como uma pessoa com limitações. Porém, o olhar pela mídia e pela sociedade deve ser orientado pelas capacidades dessas pessoas e não pelas limitações.

Ele explicou que a revista Sentidos foi criada com o objetivo de ampliar os espaços da diversidade na sociedade, mas não podia se resumir apenas a isso. Afinal, assim como temos diversas classes dentro da comunidade gay, entre os deficientes físicos também não é diferente. Para conseguir chegar a esse enorme público, a equipe teve que se adequar às suas necessidades, com diferentes formas de comunicação associadas à revista.

Uma das questões foi “como fazer uma revista para cegos?”. Para isso, a empresa teve uma parceria com a instituição Laramara, o que possibilitou a inserção de áudios gravados das matérias. Já para os surdos não-alfabetizados, outro software possibilita a transformação do texto para a linguagem das libras (língua utilizada pela comunidade surda no Brasil), facilitando assim a leitura no site.

Já o Jorge Tarquini, aqui da DOM, dissertou sobre as dificuldades de montar uma revista gay no Brasil sem esbarrar na questão do nu. Além disso, também foi explicado a necessidade da revista não praticar a exclusão, o que provoca o preconceito inverso. Daí surgiu o conceito de hetero-friendly, uma revista em que todos possam ler sem se sentirem ofendidos.

Jorge explicou que o gay não tem que ser visto como vítima, ele faz parte da paisagem, da natureza humana, não é um ponto fora da curva. A revista não teve que conquistar um espaço, pois esse espaço já existia. O homossexual está na sociedade para quem quiser ver. Ele disse que não temos o direito de dizer que a sociedade não está preparada para questões assim, como a homossexualidade. Há determinadas coisas que só aprendemos na prática.

Também foi discutida a questão do pink money (que demos uma reportagem na DOM #2 e que causou interessantes abordagens em nossa comunidade do Orkut). Jorge explicou que o pink money sempre existiu, porém deve ser entendido que nem todo gay é rico, sarado e lindo. É necessário fugir dos estereótipos para conseguir chegar a todos os tipos de público.

A palestra da Flavia Moraes, da Philips do Brasil, confesso que me surpreendeu positivamente. Ela fez indagações que deixaram a todos ora pensativos, ora indignados. Flavia começou com a abordagem “Nós não identificamos a sociedade em que vivemos. Quem estamos vendo no espelho, com quem estamos nos relacionando?”.

Nas empresas, a questão do público é vista muitas vezes por uma simples equação: quanto custa fazer tal projeto e quando vai receber do público? Porém esse público não é facilmente identificado. Há sempre uma generalização.

Ela ressalta que a questão da diversidade ainda é muito primária. Progrediu durante os anos, é evidente, porém não na velocidade que deveria. E há urgência para promover essa mudança.

Outra forma de preconceito que Flavia declarou é o que acontece entre as próprias mulheres. Muitas mulheres ainda não querem ser vistas como mulheres, pois isso poderia dificultar seu trabalho no mundo corporativo, por conta do alto machismo que existe. Ao invés de lutarem contra o machismo, elas são incorporadas a esse pensamento.

Ela completa que grande mídias têm que tratar do tema da diversidade, o leitor tem que exigir essa discussão e os anunciantes precisam ampliar a visão. Só trabalhando conjuntamente é possível mudar essa visão da sociedade. Segundo Flavia, a questão não é só numérica, pois comunicar sem sinceridade é o que mais acontece. Quanto mais existirem pessoas que queiram transformar, mais rápido a situação se modifica.

Flavia finalizou com um pensamento que todos deveriam incorporar à sociedade: “Todos queremos um mundo melhor, em que caibam todas as pessoas. Não há nada simples na diversidade. Pelo contrário, é bem complexa. Porém para mudarmos a realidade basta posicionamento e coragem”.

palestra.jpg

Ricardo Hida, Oswaldo Faustino, Milton Belintani, Jorge Tarquini, Flavia Moraes e Andrea Wonffenbutell

Como discurso final, Oswaldo Faustino, da Raça, fez uma leitura de um conto que ele anos atrás havia escrito, denominado Espelho Mágico (se você quiser ler o conto na íntegra entre aqui e vá na página 18). Um conto realmente maravilhoso, que trata da diversidade e da questão das comunidades invisíveis e que apresenta um pensamento bem forte: “A dor da invisibilidade só sente quem tem”.

Tenho certeza que todos esses profissionais que participaram da roda se encontram nessa coragem referida por Flavia. Coragem de lutar contra paradigmas. Coragem de lutar por seus objetivos em prol da sociedade e não de si mesmos. Coragem de fazer 3 publicações incríveis com o objetivo de chegar a todos os públicos possíveis.

Não é fácil. Mas, ao menos falando pela DOM, eu sei o quanto é doado de amor e dedicação para montar um veículo assim. E o resultado são vocês, nossos leitores, que ora nos apóiam, ora nos criticam, mas sempre para ajudar. Ajudar a todos nós, ajudar a sociedade.

Parabéns pela idéia do evento! Espero que eu tenha conseguido transmitir um pouco da responsabilidade que um evento como esse pode ter.

5 Respostas to “DiverCidade”

  1. A philips participando de evento onde também se discute a causa gay? A philips nunca veiculou qualquer tipo de propaganda na mídia gay. Está querendo se regenar? Outra empresa cuja postura me deixa muito magoado é a GILETTE, pois sabe que barba também cresece em gay, mas nunca fez qualquer propaganda em veículo homossexual.

  2. Valdete da Graça Says:

    Pena eu estar tão longe de discussões assim. Estou em Maringá (PR) e fiquei sabendo do evento por um amigo. Jorge Traquini, nosso “eterno” Beto, tudo o que você põe a mão, com certeza será um sucesso.

  3. Laio de Realengo Says:

    Gostei muito da matéria a discussão é sempre interessante para fazer pensar.

  4. Pô, que legal ler esse post sobre o evento. Não pude ir e fiquei bastante curioso, agora tive uma boa idéia do que perdi. Deve ter sido incrível!

    E o blog da DOM tá cada vez melhor, que legal! Parabéns Paulo!

  5. Muito interessante os temas abordados e, além do mais o blog da DOM mostra de forma objetiva e exclusiva os textos,as fotografias e as criações dos eventos. Portanto, considero bom.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: