Cuspindo no prato (depois de se fartar)

Tive um colega de faculdade (digo colega, pois vi que não merecia minha amizade) que tinha carro, vestia-se bem, estudava em uma faculdade de ponta e particular, mas tinha vergonha. Vergonha de seus pais, que eram feirantes. Sim daqueles para quem concordância verbal é um luxo. Os conheci: gente boa, honesta, trabalhadora.

Mas eles eram “errados”, segundo os padrões desse colega. Eles tinham a aparência errada, as roupas erradas, a voz errada, as palavras erradas, o comportamento errado. Mas o que tinham de correto? Com o suor do rosto, e à custa de muito esforço, educaram os filhos, deram carro, casa, comida (da melhor) e roupa (de marca) lavada, passada e guardada em armários embutidos.

Apesar de não gostar dos pais, só sei que o dito cujo saiu de casa apenas para casar (e morar em um belo apartamento financiado por baciadas de mandioquinha e abobrinha vendidos na feira). Até hoje não entendo como ele podia desprezar tanto aqueles pais.

No último final de semana, consegui entender um pouco mais. Vi tanta gente que fez a “fama” com o mundo gay e ainda vive dele dizendo, do alto de sua “fama”, que a parada só tinha gente feia e que foi um horror. Mas soa estranho como, assim como meu colega de faculdade, apesar das críticas, não largam “cama e roupa lavada”, marcando presença com eventos que, de costas para o que rolava na avenida, não conseguem usar o “poder” acumulado para verdadeiramente fazer da parada algo melhor.

Enfim, só mesmo muita terapia para entender por que se cospe tanto no prato em que se comeu.

3 Respostas to “Cuspindo no prato (depois de se fartar)”

  1. Sem muito o que dizer, pois o texto fala tudo.
    Comentando para deixar um Parabéns.
    Sábias palavras.

  2. Gostei muito do texto por refletir sobre as manias de grandeza e de glamour da comunidade gay.
    Só acho q a parada nao deve perder seu senso de humanidade e respeito, como também, espero q alguns gays reflitam sobre atitudes de extremo mau gosto, como por exemplo, as pegações vergonhosas em praça pública que impedirão que nas próximas paradas, pais e filhos possam assistir ao evento de maneira saudável.

  3. andre faria Says:

    É mesmo uma pena, existem gays que escondem suas origens (embora não tenha obrigação de ostentá-la a ninguém) em uma imagem que não condiza com a mesma. Eu designer de jóias, graças a deus e a meu talento reconhecidos no setor nacional, no entanto não escondo de ninguém (em momentos, é claro, que tenha que revelá-la) de onde sou, de onde vim, afinal, ser gay já tem suas encargas de dificuldades que é inerentes, e isso infelismente é indiscutível, agora é mais triste ainda um gay sabendo disso, usar (talvez) esses encargos para justificar o que não é justificável…ignorância tem limites né meu bem ?!
    BEIJOS A TODOS.

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