Gays: uma caixinha de surpresas

Diferentes ou iguais… hipocrisia?

Vou pegar carona no último post do Augusto, sobre Madonna na DOM e quero fazer uma espécie de desabafo-discussão aqui no blog (afinal, esse é um dos papéis deste veículo, certo?). Desde que entrei na DOM e comecei a ganhar um maior contato com o público gay (não como participante, como era antes, e sim como observador), tive a oportunidade de poder analisar as diversas e, muitas vezes, controversas opiniões dos leitores. Eu acho que o post do Augusto consegue ilustrar bem o que quero (embora não saiba se conseguirei sem parecer arrogante) demonstrar.

Por que falamos incessantemente de Madonna nos veículos assumidamente gays (e em tantos outros enrustidos)? Será que pisamos sempre na tecla clichê e não abrimos espaço para novas “musas”? Por que, enfim, os gays idolatram essa cantora?

A grande questão não é conseguir responder a essas perguntas e sim usá-las de gancho para um dos temas centrais dos pensamentos que quero desenvolver. As revistas gays têm que necessariamente retratar assuntos gays? Concordam ou discordam?

Essa foi uma das perguntas questionadas no debate A Homossexualidade na Mídia, promovida na última semana na Caixa Cultural, em São Paulo. O evento contou com a participação de Rodrigo de Araújo, da G Magazine, André Fischer, da Junior e nosso Valmir Junior, da DOM. Aparentemente, quando se lê essa pergunta, vem à cabeça a resposta “não, podemos falar de tudo!”. Sim, realmente pode-se falar de tudo, mas será que é isso que o público quer? Partindo do pressuposto que uma revista segmentada significa que ela irá atingir um público específico, entende-se que o assunto de público também será específico. Concordam ou discordam?

Não que necessariamente só se deva falar sobre “os clichês gays”. Não, longe de ser um veículo que exclua os demais públicos. No entanto, por que ler uma matéria na DOM ou em qualquer outro veículo voltado para o público gay, que facilmente poderia ser lido numa Veja, Superinteressante, Isto É, Carta Capital…? Concordam ou discordam?

Vamos lá, serei ainda mais específico agora. Os gays querem fugir da visão estereotipada que o mundo tem deles, certo? Queremos mostrar que temos conteúdo, cultura, somos inteligentes, trabalhamos e tudo o mais. Okay, até esse pensamento já virou clichê. Então vamos para a questão da capa, por exemplo, da DOM. Muitos leitores reclamam que não temos um gay assumido na capa. Concordo, uma reclamação completamente relevante.

Agora vamos a uma suposição: digamos que colocaríamos um gay em nossa capa, famoso, baixinho, barrigudo, feio, aparentemente desinteressante. Não haveria na revista homens lindos, modelos gostosos, ensaios quentes. O que vocês achariam? Sejam sinceros, aqui pode! A revista ficaria mais interessante? Concordam ou discordam?

Vamos lá, mais uma questão: ser gay… mas tem que participar? Pergunto isso por conta de uma das famosas reuniões no almoço/café com a redação da DOM, onde discutimos desde o filme visto na Sessão da Tarde (minto, porque nessa hora estamos trabalhando!) até as discussões filosóficas do mundo contemporâneo. Assim como já discutimos se existe ou não moda gay (que o Jorge já até comentou sobre aqui no blog), desta vez nos questionamos, novamente, sobre os clichês do mundo gay.

“Não saio de balada, não aprecio música eletrônica, não sou adepto ao mundo da musculação, não acho legal a Parada Gay, não uso marcas de roupa da moda, não idolatro Madonna… Sou menos gay que os outros gays?”

Entendem onde quero chegar? O problema de nós gays é que muitas vezes colocamos todos os gays num só saco e queremos que sejam tratados da mesma maneira, com os mesmos pré-conceitos. Sim, gays são extremamente preconceituosos e, pior, com eles próprios. É como querer colocar todos os heterossexuais juntos e dizer que são iguais. A única coisa que nos diferencia é o fato da preferência sexual. Concordam ou discordam?

Por que não um hétero que acampe 10 dias antes na fila do show para ver a apresentação da Madonna no Brasil? Ou quem sabe um gay que fique no meio da Gaviões da Fiel e delire com o gol do Corinthians? Por que temos que separar tudo e estereotipar? Ahhh… meu Deus, a palavra que tanto usamos voltou para nós mesmos: estereótipo. Será que os outros nos colocam em estereótipos ou nós mesmos? Concordam ou discordam?

Agora entendem como é mais difícil do que parece fazer uma revista voltada para o público gay? Está muito além de colocar um rosto bonito na capa ou fazer uma matéria polêmica. Escrevemos não para um público e sim para diversos públicos, cada um com suas características, desejos e angústias. Talvez um sub-grupo não se identifique conosco hoje, talvez amanhã nos ame e depois de amanhã nos odeie. Mas acreditem: nós fazemos, ou tentamos fazer, de tudo para entender vocês. Talvez respondendo aos meus diversos “Concordam ou discordam?” deste post seria um bom caminho.

Boa digestão dos meus caracteres.

10 Respostas to “Gays: uma caixinha de surpresas”

  1. Eu escrevi um texto sobre isto no post sobre uma possível capa com Madonna. Eu entendo a dificuldade de se fazer uma revista gay ou não, embora não seja jornalista e nem trabalhe em área afim e, por isso, costumo tolerar aquilo que, na minha opinião, seria dispensável, pois o que me desagrada pode agradar a outros e vice-versa. Porém, quando vejo que faltou bom senso, não deixo de ser sincero e de emitir opinião sobre aquilo que acho que tenho algo a dizer, pois se gasto dinheiro e tempo comprando e lendo a revista Dom (aliás, fiquei sabendo, pelo rapaz que me vende a revista, que ela está fazendo sucesso em minha minúscula cidade, pois a banca dele é a única que recebe a revista Dom aqui) tenho o direito de ser um leitor ativo e não passivo, sem trocadilhos, por favor. Eu sempre achei que o aluno, muitas vezes, faz o professor e vice-versa, então, também acho que o leitor, muitas vezes, ajuda a fazer a revista. Até porque quem cala consente. Voltando ao assunto do post, uma coisa eu posso dizer: quanto mais fugir dos estereótipos, melhor será para todos. Na minha opinião, toda revista é segmentada, já que todas têm um público-alvo específico. Todas devem enfrentar, também, dificuldades de pauta, pois é difícil saber como agradar e deve ser difícil fugir do lugar-comum, porém os desafios estão aí. Eles são instigantes e quem está na chuva é para se molhar. Eu era assinante de um jornal e resolvi cancelar a assinatura porque não tinha mais como pagar. Ao saberem disso, a primeira pergunta que me fizeram foi se o cancelamento era porque eu discordava da linha editorial. Ou seja, ficou clara a preocupação em saber se estavam atingindo o público-alvo, já que o jornal sabia que eu estava dentro do seu perfil. Uma revista gay não deve tratar apenas de assuntos gays. É evidente que não. O que ela deve é se especializar e saber fazer e tratar dos assuntos gays com mais profundidade e qualidade, mas não deve negligenciar outros assuntos. São justamente outros assuntos que busco na revista Dom. É isto o que lhes peço. A revista gay deve tratar de assuntos que podem ser encontrados em outros tipos de revistas, sim, pois eu, por exemplo, sou pobre e não tenho condições de ficar comprando diversos tipos de revistas. Sem falar que ficar na mesmice é cansativo e produz comodismo. Senhor Paulo Basile, sou uma pessoa educada e discreta, mas me permita, por favor, uma abordagem mais direta: o senhor esqueceu-se de dizer que a segmentação de uma revista não se dá apenas pelo público-alvo escolhido, mas pela cidade-alvo escolhida também. A revista Dom é altamente paulistana. Nada contra São Paulo. Não está embutida, nesta conclusão, nenhuma ponta de desdém em relação a esta excelente cidade, que admiro demais, mas como sou do interior do Brasil isto fica evidente. É por isso que sinto que a revista Dom, muitas vezes, não “fala minha língua”, embora, no geral, eu goste da revista. Mas não sei se a relação será eterna ou efêmera, pois há muitas variáveis nesta vida. Mas, parodiando o poeta: “Que ela seja eterna enquanto durar”. Abraços do André.

  2. Concordo. Descordo… Bingo! Legal, descobriu-se que somos diferentes… Não por sermos gays ou por existirem heteros, não, vai além disso. Na sociedade existem os tais “grupos sociais” certo? Grupos estes divididos em digamos “varias modalidades”, que vão desde práticas religiosas a diversidade sexual, nível econômico, escolar, cultural, etc… Dentro desses grupos existem outros grupos que partem do mesmo principio, mas não têm as mesmas conclusões. Por exemplo: a heteros que não se incomodam em dividir o local de trabalho com homossexuais, pois o fato de ser hetero ou não, em nada influência na sua convivência com outras PESSOAS sejam gays ou quais quer outras… Já existem heteros que evitam ao máximo qualquer tipo de aproximação (movidos pelo preconceito ou seja lá o que for) justificam-se que pelo fato de serem heteros o fato de não gostarem de lidar com esse “tipo de gente” (acreditem, eu ouço muito essa expressão). Isso não é uma particularidade de meia dúzia de grupos, mas é parte integrante de qualquer sociedade do século XXI. Bem por quê conosco seria diferente? O que muita gente ainda não percebeu é que somos diferentes assim como todos são iguais e que buscamos a igualdade para uma infinidade de pessoas diferentes que vai além de qualquer sigla ou bandeira (não que isso não seja importante) mas que toca diretamente num princípio em comum e que faz de nos um grupo diversificado mas com uma mesma origem. “Concordam ou discordam?”

  3. Concordo com o fato de que o público Gay é tão diversificado quanto qualquer outro, que temos o hábito de nos auto-estereotipar. Mas eu não me preocupo (tanto quanto deveria) com toda esta questão dos estereótipos, porque tento sempre aparentar e me portar como realmente sou. Em outras palavras: Não faço tipo.
    O que me incomoda de vez em quando, é ver alguns garotos (gays ou enrustidos) tentando fugir do estereótipo A TODO CUSTO. Fazendo desdem dos elementos que caracterizam o estereótipo da “cultura gay” (como Madonna, grifes, música eletrônica e etc), apenas com o intuito de parecerem originais ou intelectualmente superiores.
    É hipocrisia negar que a maioria dos gays brasileiros gostam da Madonna, assim como seria ridículo idolatra-la apenas para se encaixar no grupo. Se todos se preocuparem com seus reais interesses e deixarem de julgar o próximo, podemos construir uma REAL cultura e costumes, sejam eles “diferentes dos héteros” ou não. Excessões e diferenças sempre existirão.

    Resumindo, acho que negar estas características de nossa “tribo” pode ser tão ruim quanto colocar todos num saco estereotipado. Há um meio termo e semelhanças que podem e devem ser aproveitadas na linha editorial, mas as diferenças devem tambem ser aproveitadas.

  4. Laio Realengo Says:

    A sociedade está acostumada a rótulus e fugir disso é trabalhoso. Sei que fazer uma revista é desafiador, mas procurar informar e reafirmar é necessário até pra que haja evulução e possamos avançar.
    Defintivamente sou gay por que gosto de homem agora meu comportamento não mudará por causa disso. Antes de qualquer outra coisa sou humano com todos os vícios e virtudes que a humanidade possa ter.

  5. O limiar entre a igualdade e diferença humana é muito próximo. Pois ao mesmo tempo em que somos todos iguais, somos também tão diferentes, não?
    Criou-se, por exemplo, a idéia de que todo gay é uma bichinha sedenta por sexo, e numa sociedade – como foi dito anteriormente – que gosta de rotular e vive de culto a imagem, como mudar essa idéia?
    Sou a favor, sim, de diversificar uma revista mesmo que especializada – desde que tenha um certo limite, pois se fugir da temática gay de nada adianta comprar a revista, ao contrário, compraria uma Vogue, Superinteressante, Veja..
    Mas ao meu ver, como foi dito anteriormente, o ideal seria fundamentar, aprimorar, aprofundar uma visão, fugindo do comum.
    Enfim, saí para o almoço e acabai me perdendo no raciocínio.

  6. pedro paulo maia Says:

    bom falamos de madonna pq ela é uma artista que mesmo com anos de carreira ainda vende mto e faz um puta sucesso. acho que gays idolatram ela assim como mtas mulheres resolvidas, desde os anos 80 ela é exemplo de liberdade sexual.
    acho que as revistas nao precisam só falar de assuntos gays, elas tem que falar de assuntos normais sobre uma visao gay, isso que torna uma revista segmentada diferente das outras.
    realmente se tivesse uma capa com um cara sem graça nao venderia mto, a nao ser se ele fosse bem conhecido e talz.
    e acho que o esteriotipo sempre vai existir, e nao só dentro do mundo gay. tipo um rapper, vc imagina como ele eh, como se veste e sabe diferenciar um no meio de um monte de emos. eu acredito que separar as pessoas por classes ou nichos é normal. a gente faz isso sem perceber, nosso cerebro classifica e separa tudo pra organizar a memoria.
    o dificil em fazer uma revista gay, é que a unica coisa em comum entre os leitores é o fato de gostarem do mesmo sexo. tipo em uma revista sobre futebol, vc fala tudo de futebol, todo mundo que goste de futebol vai comprar. em uma revista gay, vc tem que procurar o ponto de equilibrio, oq a maioria tem em comum e com isso a revista vai agradar o maior numero de pessoas.

  7. Não entendo pq alguns gays admiram tanto a Madoina, ele defende a Cabala, religião homfobica que condena os homossexuais. Outra, o blog é dirigido ao público homossexual masculino, certo? Tá então o que ela faz aí? Não entendo essa obsessão dos gays efeminados por cantoras divas. Seria atural que numa revista para homens gays não se falasse muito de mulher, certo? Então todos os gays gostam de Madona? Que estereotipo generalizante e infeliz!

  8. Guilherme Moraes Says:

    A revista pode sim tratar de outros assuntos que não são necessariamente gays. Mas isso não deve ser o norte da linha editorial. Por que se eu quiser ler sobre outra coisa qualquer que não o universo gay, compro uma revista qualquer. Quanto à Madonna é verdade que todo mundo acha que todo gay morre por ela. Até gosto do som que ela faz, mas só pra constatar, morro pela Mariah Carey.
    Quanto aos estereótipos isso é uma coisa mais que normal, todos sofremos com isso e acho que essa situação nunca vai mudar. Eu por exemplo. Sou gay. Por isso todo mundo acha que amo a Madonna (de novo!), que sou passivo, que sou louco por sexo e aceito qualquer coisa que vem pela frente. Acham que sei dar hiper-mega-bem, que sou rato de boate, que ando com roupas de grife por que sou fresco e não pelo conforto e o pior! Que uso calcinha. Sou negro. Por isso também todo mundo acha que curto um pagodinho, roda de capoeira, feijoada com um sambão de fundo, carnaval essas coisas.Penso que é mais fácil para as pessoas colocarem rótulos naquilo que elas não conhecem, do que deixar os preconceitos de lado e descobrir que somos muito mais do que loucos pela Madonna (de novo e de novo!).
    Acredito que a DOM pode não deixar de retratar esse lado da cultura gay, mas sim deixar de planar na superfície e mergulhar fundo no mundo homo. Meu sonho é ver uma revista gay que tão boa quanto a Playboy. Afinal a qualidade editorial da revista é inegável.
    Sobre a questão de colocar um gay famoso na capa, não precisa ser alguém que é meia-boca com descrito no post. Internacionalmente tem muitas celebridades que tiveram a corem de se assumir.
    Pra finalizar, eu gosto da revista. Ela trás matérias interessantes e fotos lindas. Mas pode melhorar.

  9. Olá!
    Não sou homosexual, mas adorei os comentários aí!
    Vocês acreditam, que nunca eu tinha ouvido de que a maioria dos homens que curtem Madonna era gay? Acho que não tem nada haver. Deve existir muitos homens que curtem a cantora e não são gays! Sei lá, mas gosto é gosto e cada pessoa é diferente. Gostos não se discutem por sexualidade, à não ser pela própria sexualidade: homo ou hetero.
    Ah! E não conheço a revista Dom ainda, mas se a vir em alguma banca, vou ter que dar uma olhada.
    Abraços,
    Michelle

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